Pedras que Murmuram, Ruínas e Memória * Murmuring Stones, Ruins and Memory

Tenho, enho, juntamente com o A. (e nisso somos absolutamente idênticos) uma visão muito intensa quanto ao tema da preservação dos monumentos.

Castelos, igrejas, mosteiros, pontes, palácios, casas senhoriais. A união da história, da arquitectura, da paisagem natural envolvente, um passado em que entramos como se se abrisse um portal privilegiado, só para nós, por umas horas. Mais do que um hobby, é uma paixão, que partilhamos e temos vindo a viver o mais intensamente possível, há muitos anos.

E a verdade é que estes locais têm um impacto emocional em nós que não depende do seu estado de conservação. Por vezes, o apelo é inversamente proporcional ao grau de intervenção.  As ruínas conseguem evocar emoções únicas, assim como as pedras deixadas aos elementos.

Nesta materia, adquirimos, com a experiência, uma intuição imediata. Quando chegamos a um local, logo percebemos se temos sorte. "Este é um daqueles sítios...". Normalmente é um local pouco intervencionado em que o tempo se dissolve. Uma atmosfera peculiar. Se juntarmos a isto o facto de a nossa estética preferida ser a medieval, e o estilo arquitectónico predilecto o Românico, a atracção gravita em torno daqueles lugares que ainda conseguem transmitir esta essência originária, primitiva.

É claro que esta é uma visão poética. Um pouco ao estilo dos Românticos do Século 19 e seus "locus" preferenciais. 

Numa perspectiva mais realista, sabemos que há tesouros que se podem perder se não sofrerem obras de intervenção, que há uma manutenção necessária e preciosa que, não só toleramos, como desejamos. E tantas vezes acompanhamos estas obras, ao visitar um local antes e depois da sua requalificação. E, quando a memória não basta, temos as fotos do "antes e depois".  

Lamentavelmente, por vezes a intervenção estragou toda a magia.

Percebemos que foi lavada a pedra medieval escura e manchada, com líquenes, musgos, manchas, que lhe davam carácter, personalidade. Tornaram-na clara e homogénea (com jacto de areia?), por vezes reavivaram as juntas com cimento fresco e visível (com cimento de cor contrastante?).

Vezes demais ficámos estupefactos e desiludidos. Pode ter havido a melhor das intenções, pode até haver intervenções de limpeza que têm de ser feitas sob ameaça de degradação irreversível. Mas é triste. Quanto tempo demorará um retorno à anterior estética que tornava o lugar único? Séculos?

Assim só numa breve lembrança, temos alguns exemplos desta desilução radical. O Castelo de Penedono, que tem um traçado mágico, e evoca uma estética de lendas fantasiosas, há uns largos anos tinha uma pedra maravilhosamente repleta de líquenes, uma tonalidade escura e manchada, num conjunto homogéneo com as casas envolventes. Há pouco, revisitamo-lo e a pedra estava limpa. Diríamos, radicalmente limpa, porque a certa distância quase não se percebia a textura da pedra e poderia ser um cenário impresso a 3D.

A Ponte do Arco, Românica, sobre o rio Ovelha, escura e de pedras irregulares, está agora com as juntas renovadas e uma cor unificada. Continua bonita, e o local é mágico, mas lá se vai a dimensão extra que lhe dava personalidade.

Há várias igrejas da Rota do Românico que têm a pedra demasiado limpa, as juntas contrastantes, uma obsessão pela renovação.

A pedra suja faz parte, não só da estética, mas da memória. Mesmo que não se tenha a obsessão - como nós assumimos ter - pela atmosfera o mais nitidamente ancestral possível, tem que se entender este conceito. As camadas de história traduzem-se em camadas de vestígios. Acumulados. Inexoravelmente. Ao longo de Séculos.

Mas parece haver uma obsessão generalizada com a preservação enquanto sinónimo de limpeza. Lembro-me de ter publicado umas fotos do claustro do Mosteiro deRendufe, obviamente degradado, com vegetação invasora, um verdadeiro local selvagem, mítico e histórico (não medieval mas evocativo), e alguém dizer "Que pena, deixam tudo ao abandono..." e eu pensar "Mas... mas... é sublime assim..." Tantas outras vezes, um comentário ou outro menciona, em tom elogioso "tão bem preservado". Julgo que esta lavagem cerebral advém de tempos em que a ruína causou a perda e se associa abandono a risco. Percebo a ideia subjacente, intelectualmente, mas não a partilho.

A prova é que tantos locais estão preservados e requalificados sem adulterar a memória das pedras. Assim, só de imediato, o Mosteiro de Salzedas, o Castelo de Numão, inúmeras igrejas românicas espalhadas pelo país, a Ponte da Panchorra. Tantos sítios em que a passagem do tempo não trouxe danos problemáticos, e também não trouxe perda de personalidade e encanto.  

Curiosamente, nas nossas incursões pela Inglaterra, Escócia e Irlanda, percebemos que a filosofia quanto ao património é muito mais próxima da nossa. Netley Abbey, nos arredores de Southampton, continua arruinada, e encantadora. Os castelos escoceses e irlandeses são deixados aos elementos, e mesmo aqueles que se tornaram famosos locais de visita (Urquhart por exemplo), continuam a manter as suas pedras soltas e paredes incompletas. É certo que os institutos de preservação do património não deixarão ruir estes locais, e estarão atentos, e de certeza realizam obras de preservação de estruturas frequentemente. Mas não se nota. A pedra não é certamente lavada nem as juntas preenchidas. O que é perfeito.

Será, talvez, uma tendência cultural. Mas os bons exemplos portugueses dão-nos esperança.

Oxalá permitam que as pedras antigas mantenham as suas memórias gravadas e continuem a falar na sua linguagem primordial.

 

*

 

Together with A. (and we are absolutely identical in this), I have a very strong vision regarding the subject of preserving heritage sites.

Castles, churches, monasteries, bridges, palaces, stately homes. The union of history, architecture, the surrounding natural landscape, a past that we enter as if a privileged portal had opened, just for us, for a few hours. More than a hobby, it is a passion that we share and have been living as intensely as possible for many years.

And the truth is that these places have an emotional impact on us that does not depend on their state of conservation. Sometimes, the appeal is inversely proportional to the degree of intervention. Ruins can evoke unique emotions, as can stones left to the elements.

In this matter, we acquire, through experience, an immediate intuition. Upon arrival at a place, we immediately realize if we are lucky. "This is one of those places...". Usually, it is a place that has not been subjected to much external intervention, allowing time to work independently. A peculiar atmosphere. If we add to this our preference for the medieval aesthetic and Romanesque architectural style, the attraction gravitates towards those places that still manage to convey this original, primitive essence.

Of course, this is a poetic vision. A bit like the 19th-century Romantics and their preferred "locus".

From a more realistic perspective, we know that treasures can be lost if not subjected to restoration work; there is a necessary and precious maintenance that we not only tolerate but desire. And so many times, we witness these works when visiting a place before and after its rehabilitation. And, when memory is not enough, we have the "before and after" photos.

Unfortunately, sometimes, the intervention has ruined all the magic.

We realize that the dark and stained medieval stone has been washed; where are the lichens, moss, and stains which gave it character? They have made it clear and uniform (with sandblasting?); sometimes, they have revived the joints with fresh and visible cement (of contrasting colour?).

Too many times, we have been left astonished and disappointed. There may have been the best of intentions, some cleaning interventions surely had to be carried out under threat of irreversible degradation. But it is sad. How long will it take to return to the previous atmosphere that made the place unique? Centuries?

We have some examples of this radical disappointment. Penedono Castle, which has a magical layout and evokes the aesthetics of fantastical legends, had a stone wonderfully covered in lichens, a dark and stained tone, in a homogeneous setting with the surrounding houses. We recently revisited it, and the stone was clean. We would say radically clean because from a distance, the texture of the stone was barely perceptible, and it could have been a 3D-printed scene.

The Ponte do Arco, a dark Romanesque bridge over the Ovelha River with irregular stones, now has its joints renewed and a unified colour. It is still beautiful, and the place is magical, but the extra dimension that gave it character is gone.

Several churches on the Route of the Romanesque have a “way too clean” stonework, contrasting joints, and an obsession with renovation.

The dirty stone is part not only of the aesthetics but of a site’s memory. Even if someone has no obsession - as we assume we do - with the most clearly ancestral atmosphere possible, I think it’s easy to understand this concept. Layers of history translate into layers of traces. Accumulated. Inexorably. Over centuries.

However, there is a widespread obsession with preservation, equating it with cleanliness. I remember posting some photos of the cloister of the Rendufe Monastery, obviously degraded, with invasive vegetation, a truly wild, mythical and historical place (not medieval but evocative), and someone said, "What a shame, they leave everything abandoned..." and I thought "But... but... it's sublime like that..." So many other times, we read comments or mentions in a complimentary tone, praising a place for being "so well preserved". I believe this brainwashing comes from times when ruin caused loss and abandonment, and it became associated with irreversible risk. I understand intellectually the underlying idea, yet I don't share it.

The proof is that so many places are preserved and renovated without altering the memory of their stones. Just citing some examples that come to mind, the Monastery of Salzedas, the Castle of Numão, countless Romanesque churches spread throughout the country, the Ponte da Panchorra. So many places where the passage of time has not brought any problematic damage or loss of personality and charm.

Interestingly, in our explorations into England, Scotland and Ireland, we realized that the philosophy towards preservation of heritage sites is much closer to our personal ideal. Netley Abbey, just outside Southampton, is still in ruins, and charming. Scottish and Irish castles are left to the elements, and even those that have become famous landmarks (Urquhart and Kilchurn, for example) continue to retain their loose stones and incomplete walls. We are sure that heritage preservation institutions will not let these places collapse, will be vigilant, and will undoubtedly carry out frequent preservation work on structures. But it doesn't show. The stone is certainly not washed, nor are the joints filled. And that is perfect.

Perhaps it’s a cultural trend. But the good Portuguese examples give us hope.

May they allow the ancient stones to keep their memories untouched and let them continue to speak in their primordial language.